Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Adicionar legenda
Queijadinha

Ingredientes
3 ovos
1 lata de leite condensado
meia xícara (chá) de manteiga sem sal
5 colheres (sopa) de farinha de trigo
1 xícara (chá) de queijo parmesão ralado
200g de coco seco ralado
1 xícara (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de água (200ml)

Modo de Preparo
Em uma tigela, coloque as gemas previamente
passadas pela peneira, as claras e bata com o auxílio
de um batedor de arame por cerca de 30 segundos.
Junte o leite condensado e a manteiga, e misture bem.
Adicione a farinha de trigo o queijo ralado e o coco
aos poucos, mexendo até ficar homogêneo.
Forre fôrmas de empada (6 cm de diâmetro) com forminhas
de papel e distribua a massa. Leve ao forno baixo (180 graus),
preaquecido, por 35 minutos,ou até dourar. Retire do forno
e sirva quente ou frio.

domingo, 18 de novembro de 2012

OS MEIOS ELETRÔNICOS NÃO MUDAM A ESSẼNCIA DA LITERATURA


OS MEIOS ELETRÔNICOS E A ESSẼNCIA DA COMUNICAÇÃO


A internet e os novos dispositivos eletrônicos de leitura não vão mudar a essência da literatura. A avaliação é da presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado. Ela participou nesta sexta-feira da Festa Literária Internacional das Unidades de Polícia Pacificadora (Flupp), que será realizada até domingo na comunidade do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Ana Maria conversou com um grupo de crianças e adolescentes de escolas públicas do Rio e respondeu a perguntas da plateia.
"A tecnologia não vai modificar a literatura. Pode mudar o mercado de livros. Mas a literatura é a mesma desde que existe a linguagem. Muito antes de existir a escrita, já existia Homero, com a Odisseia e com a Ilíada. A literatura já foi escrita em papiro, em pergaminho, em rolo, em tablita tabletes de argila. O que muda é o suporte dela, se é uma tela de computador ou se é um livro, isso é secundário."
Autora de 140 livros, com cerca de 19 milhões de exemplares vendidos, traduzidos para diversas línguas, a presidenta da ABL disse que ainda não disponibilizou nenhuma obra em formato eletrônico. "Enquanto não se descobrir como remunerar o direito autoral, fica só a pirataria".
Sobre a presença da ABL na Flupp, realizada em uma área onde antes da pacificação das UPPs aparecia quase diariamente na imprensa por causa de tiroteios envolvendo o tráfico de drogas, Ana Maria disse que a academia tem uma ligação histórica com as favelas.
"A gente tem que lembrar que o fundador da academia, Machado de Assis, nasceu no Morro da Providência, a primeira favela do Brasil. Nossa presença aqui é uma volta ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Não devíamos ser uma cidade partida. Devemos todos estar juntos, na grande síntese cultural brasileira."
Uma das perguntas feitas pelos estudantes à autora foi sobre qual era o prazer de sua profissão. "O prazer de ser escritora é poder tocar o outro. Poder chegar à mente, ao coração de outras pessoas. Falar em nome dos outros. Fazer com que o outro se reencontre na gente e que cada um se conheça mais pelo o que a gente escreveu."
__________________ 
Nota: artigo copiado da internet, sem indicação de autoria, inclusive a imágem que o ilustra.

sábado, 29 de setembro de 2012

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA – SINÔNIMO DE LITERATURA


              
“(...) Notei ainda que as pessoas mais sábias nem sempre têm o que comer e que as mais inteligentes nem sempre ficam ricas. Notei também que as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (Ec 9.11b).

 Gilson Chaga 
                        escreveu 
  
Em 1973, a publicação de meu primeiro livro me propiciava, entre outras alegrias, a chance de conhecer, em pessoa, alguns dos expoentes da imprensa e letras do meu estado natal, o Piauí. Com o encantamento do quase adolescente que se vê diante de seus mitos, pude, enfim, entrevistar-me, num plano favorável, com Carlos Said – o legendário “magro de aço” - que se tornara padrinho e divulgador de minhas colaborações ao seu programa “Poesias do Piauí”, na “Rádio Pioneira de Teresina”. Inestimável apoio recebi de Herculano Moraes, já poeta de renome e secretário de redação do jornal “O Estado”, concorrente de “O Dia” na liderança jornalística regional.  Encontrei generosa acolhida em A. Tito Filho, ícone da cultura, emérito incentivador dos autores iniciantes e eterno presidente da Academia Piauiense de Letras. Conservo, ainda indeléveis, preciosas lições de Fontes Ibiapina, em nosso encontro de apresentação, na casa de seu irmão Pebinha, na cidade de Picos. Daquela primeira conversa que, ao lado do hoje destacado jurista e poeta Ozildo Barros, tive com o notável escritor, pincei a enfática afirmativa que ele ali fizera sobre Francisco Miguel de Moura. Este, a quem eu conhecia de Santo Antônio Lisboa e, à época, já com três livros na praça, era nome emergente na literatura do estado. Dentro de um contexto mais amplo, disse-nos Fontes Ibiapina, sem reserva: - “O livro de Chico Miguel, “Linguagem e Comunicação em O.G. Rego de Carvalho”, é tão bom quanto a própria obra por ele analisada”.   
  
O veredicto de Fontes – doutor da lei e das letras - era apenas um minirretrato de uma carreira em começo - alvissareiro por excelência. No curso destas décadas subsequentes, a obra de Chico Miguel expandiu-se e aperfeiçoou-se. Cresceu em número e profundidade; abriu-se para variados gêneros; diversificou-se.    Lançou ele até aqui (2012) 34 livros: 16 de poesias 4 romances, 3 volumes de contos, 2 volumes de crônicas, 7 de crítica ou história literária, 1 biografia, 1 memorial, sem contar opúsculos de crítica, depoimento e discursos. Além destes, há milhares de artigos espalhados por jornais e revistas do Brasil e do exterior.  Como diria Zé da Luz, o poeta do absurdo, ele está na “Oropa, França e Brasil”.
Pelo esmero e densidade dos textos em prosa ou verso e de sua militância quase religiosa em favor da literatura, tem sido fartamente estudado e saudado pela crítica qualificada; lido e aplaudido pelos núcleos seletos aonde sua criação tem conseguido chegar Tornou-se, enfim, nesses anos, referencial e fonte para pesquisas, dentro e fora do Piauí. É também analista e prefaciador concorrido por autores novos e veteranos.

Infelizmente, contudo, por fatores abstratos - cuja existência e efeitos o bicho-homem - admita ou conteste - não pode controlar – a obra de Chico Miguel não tem recebido tratamento justo do grande mercado editorial brasileiro, quiçá, internacional.        Juntam-se, por certo, a esses “fatores incontroláveis” algumas causas visíveis, como os históricos estigmas que, no curso dos séculos, operam e perduram contra as regiões e unidades federativas de menor expressão socioeconômica, que “a roda dos escarnecedores” (des)classifica como “longe demais das capitais”. Esses crônicos preconceitos, absurdos mas palpáveis - por um sistema perverso de transferência, acabam obscurecendo a arte produzida em estados como o nosso e limitam os horizontes dos talentos que, pelos vários motivos, neles permanecem. Raras foram até aqui as exceções que conseguiram “escapar” a esse cerco. 

         O fato é que, embora muito bem difundido nos domínios regionais, o nome de Chico Miguel, se não é exatamente inédito no restante do país – posto ter o respeito de grupos específicos - ainda não alcançou os grandes contingentes que consomem cultura além de suas habituais fronteiras.  Precisa ser (urgentemente) “descoberto” pelas editoras ditas “top”, para ser “apresentado” à grande massa. Pois no segmento editorial que reina no mercado imperam alguns enigmas e paradoxos. Exemplo: embora o livro constitua a “matéria-prima” dessas empresas, a qualidade literária da obra não garante sua seleção. E – pasme-se! – às vezes, atrapalha.  Há mais critérios e interesses entre o teto e o piso das engrenagens humanas do que supõe nossa vã filosofia. E esses descompassos têm gerado alguns mostrengos sociais. Exemplo disso é o JUQUINHA ASS (bumbum) MUSIC, santo do pau oco que vem “surfando numa onda”, arrasta multidões, fez escola e fortuna, virou celebridade. Enquanto isso, o genial Zé da Silva, que atravessou a vida real “num rabo de foguete”, deixou toneladas de grande ficção, mas nunca teve, nem terá um grama de reconhecimento. Melhor “sorte” mereceram João Sebastião e Vicente. Um músico, outro artista plástico. Ambos ouviram sonoros muxoxos dos contemporâneos, tocaram em brancas nuvens suas vidas quadradas, mas acabaram “consagrados” na posteridade. 
                                                  
    Cabe, por fim, instar o empresariado do livro a abrir uma página de seu catálogo para autores como Francisco Miguel de Moura, escritor de nome simples, que é sinônimo de literatura no Piauí desde 1966. Este, o ano de “AREIAS”, sua poesia de estreia. A bibliografia de Chico, criada em padrões de excelência, teve, até aqui, seu potencial mercadológico subutilizado em edições independentes e pequenas tiragens de programas governamentais. Ela e ele aguardam apenas um “banho” de editora, distribuição e mídia, para ocuparem, afinal, o patamar literário que lhes é de direito.

     Os leitores torcemos para que essa injustiça - que já está perpetrada – não se perpetue.  E, “para o bem de todos e felicidade geral da nação”, que essa obra singular possa ter suas fronteiras rompidas, para tornar-se, afinal, legitimamente possuída e plenamente desfrutada por seus donos verdadeiros, a massa leitora desta geração.
______________________
*Gilson Chagas, escritor e professor universitário em Brasília-DF 

sábado, 28 de julho de 2012

A bondade


A bondade é mais forte em nós e dura mais
do que o mal que nós mesmos praticamos.
O otimismo nos faz acreditar que é no fundo
das noites sem luar que brilham muito mais
nossas estrelas.

Autor desconhecido

sábado, 30 de junho de 2012

QUE COISA É O AMOR?



Francisco
Miguel
de Moura*



O amor é um dos mais universais sentimentos do homem e também um dos mais complicados. Em seu famoso soneto, Luiz Vaz de Camões assim disserta sobre o amor:


“Amor é fogo que arde sem arder;

É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

E assim segue nos demais versos do poema. A dificuldade do poeta em conceituar o amor, posto que um sentimento complexo, como dissemos acima, faz com que a definição se dê por paradoxos. No último terceto faz a pergunta: “Mas como causar pode seu favor / Nos corações humanos amizade, / Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Ora o Amor se confunde com a passividade, ora com o ódio, e em ocasiões diversas ele parece tão puro! Na juventude, quando as paixões avassaladoras transformam o comportamento da criatura quase por total, chegamos a duvidar que a criança seja a continuação do ser que até então se pensava conhecer. Quando, então, se estabeleceria o nascimento da pessoa? No momento da geração no ventre materno, no nascimento ou depois da adolescência? Ao aportar os primeiros indícios da adolescência – dizem os biólogos, pela explosão dos hormônios sexuais (estrógeno, progesterona e testosterona), os quais fazem a nítida distinção entre macho e fêmea, a criatura se sente outra e não sabe quem é, razão talvez do seu comportamento revoltado e do afastamento dos pais e adultos para construíram uma visão diferente do mundo, em vista principalmente dos desejos sexuais, os amores outrora românticos e hoje nem tanto. Cheios de outros problemas.

Aí pelo meio, há as indecisões e indagações, do próprio sexo, onde se encontram os homossexuais, ainda hoje mistério para a ciência. Estes também amam, mas sofrem mais, segundo me parece.

O amor das crianças, desta forma, ainda não é bem entendido pelo adulto. Nelas o sexo está inibido, os interesses são as brincadeiras, as aventuras e a fertilidade dos sonhos e imagens.

Há também o amor desinteressado. É o amor à humanidade, a generosidade de uma idéia ou ideal. Os artistas, os santos, os mártires estão nessa categoria, na qual chega-se às vezes ao estremo: o amador dar a vida (literalmente) por seu objeto, ou pessoa, ou ideal amado.

Uma indagação que, neste ponto se faz, é se há possibilidade de viver sem amor, sem amar. Talvez,sim, mas não será alguém sadio que o fará. Há os doentes psíquicos que só fazem mal a si mesmo, os maníacos, etc. Mas há uma classe pessoas que não podemos considerá-las sãs: os psicopatas. Nem todos os que se enquadram nessa categoria são violentos, completamente prejudiciais à sociedade, pessoas do mal. Algumas, quando o são em pequeno grau, conseguem viver sem trazer grandes problemas. O difícil é a gente conhecer esse tipo de gente: vivem como todo o mundo, não apresentam grandes diferenças de comportamento. Mas quando o grau é elevado já é possível desconfiar-se: mentem muito e não têm a menor vergonha de serem desmascarados, praticam crimes como furtos roubos e estelionatos, assassinam de forma simples ou com requinte de crueldade. Parecem ser pessoas inteligentes, mas já foi detectado que não são bons alunos, não são corretos no emprego, não gostam de trabalhar. Aliás, “eles não vão ao trabalho, vão à caça de quem eles querem alguma coisa, seja prestígio, dinheiro, poder, e para isto praticam todas as formas anti-éticas de viver em sociedade, escandalizam, etc. Não têm caráter, não têm vergonha, não têm medo. Indivíduos sem consciência do que é bom ou mão, conscientes e, como são maus, para isto trabalham e só para isto. Há na política, na arte e em atividades digamos que tratam de economia, muitas espécimes. Esses seriam os indivíduos sem dúvida, sem amor. Verdadeiramente ser amor porque conscientes. Não são propriamente doentes, são maus.

Parece-me que é difícil saber o que é o amor, pois há muitas formas de amar, como atestam os poetas. Mas não é possível ignorar a classe dos que não têm amor, embora dela não nos possamos livrar, nem haja remédio para isto.

(Publicado na página de Opinião do jornal O DIA, em 24-06-2012)

___________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta e escritor, escreve no jornal "O Dia", todos os sábados. Salvo desta vez que saiu no domingo, tendo em vista que o jornal necessitou do espaço para colocar matéria especial.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O AMOR QUE NÃO SE PODE DAR


Adriana Tanese Nogueira
(psicoterapeuta)


Amar nem sempre é possível ou correto. Manifestar ativamente um comportamento amoroso pode ser errado, não importa o que ideais e coração digam. Esta constatação vale para todo tipo de relação que envolve aquele sentimento chamado “amor”.

Uma mãe pode se ver na necessidade de não arrumar mais o quarto do filho, de não cuidar de sua comida e segurar o carinho que gostaria de expressar. Um amante pode ter que deixar a pessoa amada, e um irmão afastar-se do irmão. O sorriso pode ter que se engolido e a mão retirada. A vontade de dar, de abrir os braços e ajudar pode precisar ser contida, calada e ignorada. Por que?

Porque o amor exige reciprocidade. Quando o que se dá não encontra eco da parte de quem recebe, o dar é fora de lugar e continuar a oferecer se torna um ato neurótico. A pessoa está lutando contra o reconhecimento do que é.

Há momentos em que ser mãe é deixar de dar ao filho o que por anos foi o cerne dos cuidados maternos. As mães podem reconhecer este momento pelo cansaço que sentem. O amante sente quando é hora de ir embora quando o vazio se torna insuportável. E o amigo dá adeus ao companheiro ao perceber que por vezes demais os fatos não rimam com as palavras. Como um terreno que dá abundante colheita mas não é nutrido chega a secar, assim o doador de amor, achando que está fazendo uma coisa bonita, continua a agir conforme seus sentimentos até encontrar-se seco e cansado.

Se amar é uma função de ligação, ela só pode funcionar quando há autosustentabilidade. Amor é um processo psíquico que se autoalimenta pelas ações das partes envolvidas. A ação habitual é ativa e positiva, o dar. Se ela não estiver surtindo efeitos, é preciso passar à sua forma negativa e passiva, o retirar, ausentar-se, silenciar e afastar-se. Somente desta forma se preserva o equilíbrio psicológico.

Inevitavelmente, a tristeza é sua consequência. Deixar de expressar o carinho que se sente ou até virar-lhe as costas é doloroso para quem tem sentimentos. Entretanto, é o único caminho sustentável do ponto de vista psicológico.

Amadurecer passa por reconhecer o que é. Aceitar a realidade exposta a cada minuto de que o amigo, o filho, o amante, o irmão não retornam o amor que recebem implica para a pessoa consciente parar de jogar pérolas aos porcos. E, assim fazendo, oferecer um último gesto de amor, o de criar o vazio para permitir que no outro o sentimento possa crescer e florescer.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

UM NOVO MUNDO NOVO


Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras



Na verdade, eu não escolhi o mundo velho, de hoje. Nós não o escolhemos, ninguém escolhe nada, ou escolhe muito pouco. Eu gostaria de viver num mundo de liberdade e democracia, não de disputa e de concorrência. Democracia, como eu entendo, existe onde a pessoa pode escolher o que pensar, o que crer, o que fazer. Esses três verbos preenchem a condição material do homem, e em parte a espiritual.

Alguém pode objetar: Num novo mundo novo assim, visto que os pensamentos e as crenças não se encontrariam, por conta da individuação, a comunicação seria fácil ou difícil?

Primeiro precisamos dizer o que entendemos por comunicação. O homem se comunica melhor por aquilo que faz. Na verdade ninguém “é” , na verdade nós estamos, nós “fazemos”. E quando o fazemos, acreditamos. E é quando gostamos e sentimos o prazer da vida, o prazer e a vontade de continuar. A vontade, sim, a vontade de fazer, a vontade de ser útil. E a vontade é a alma. Tudo isto é comunicação, desde que com o respeito pelas diferenças e alegria pelas semelhanças e tristezas. Mesmo com as traves das línguas, com suas enormes diferenças. Uma língua universal ajudar-nos-ia a construir esse novo mundo novo que propomos. Zammenhof propôs o “esperanto”, mas ninguém acreditou. Por quê?

Não haveria disputa por ser mais ou ser menos, por pensar mais ou pensar menos, por crer ou descrer, por possuir ou não, porque a terra seria toda nossa. A vontade de ser legal, democrata, aceitar o que é bom para todas as partes, com a diferença que vier, isto é democracia. Num mundo assim, não haveria lugar para as maldades nem para as discriminações, para as guerras nem para os crimes. A natureza seria a nossa mestra sábia, viva, nutrindo-nos de todos os alimentos necessários: ar, água, luz, calor, energia. Para que mais? O céu seria aqui. O eterno? Nossa felicidade até que a natureza nos pedisse contas. E ninguém poderia negar, todos acreditariam nela.

Ainda não consultei nenhum filósofo, nenhum sábio da antiguidade nem dos tempos modernos. Mas o leitor já está se coçando para dizer-me que esse mundo que eu descrevo é um “mundo hipotético”. Citarei, pela pertinência, Arthur Schopenhauer, através do seu livro A arte de escrever (1851), a partir do qual se tornou conhecido e amado como filósofo, filósofo dos artistas e poetas: “Para a maioria dos eruditos, sua ciência é ‘meio’ e não ‘fim’. Desse modo nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo a sua própria existência fosse apenas um meio. Tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneira parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando foram produzidas em função de si mesmas e não como “meios” para “fins” ulteriores”.

Não é difícil mostrar que o mundo que Schopenhauer pensou não é hipotético: é o mundo dos poetas, artistas, filósofos e santos. Bastar ouvir, ler e sentir o mundo dos poetas, em seus poemas. Teresinka Pereira, em carta recente, relata a frustração de sua viagem à Formosa Ilha (Taiwan), convidada para lá fazer conferência e lançar um livro de sua autoria, não tendo tido a oportunidade de autografá-lo sequer para o recepcionista, poeta Kim Joung Woong, por questões talvez políticas.

Então, na sua fala, ela recitou o poema ‘Dia e Noite’, do referido poeta chinês, seu recepcionista, na ilha:

Quando seu coração se encolhe de tristeza
olhe o céu que reflete o seu coração
no coração do sol.

Quando o seu coração se descontrola,
consulte-se com a lua
no silêncio da noite.

Num dia de esplendor
pensamos possuir tudo o que queremos,
mas na escuridão da noite
uma tristeza enorme abafa o nosso coração.

Em relação com o rodar da terra sobre seu próprio eixo,
o eclipse solar e o eclipse da lua
podem nos dar encantamento ou desilusão
porque, sendo humanos, nós vivemos, sem querer,
na dependência desses fenômenos”.

Não somente no entrecho desse poema, mas também em leituras anteriores sentimos que os poetas orientais amam a natureza fisicamente, mas nem sempre são livres para tal.

Há interferências não orientais no poema aqui apresentado. Exemplo: “nós vivemos sem querer, na dependência desses fenômenos”. Tenho medo é que, com a entrada do mundo oriental na corrida da bolsa e do acúmulo de riquezas materiais (na verdade, riquezas virtuais e não objetivas) - até a rica língua deles desapareça em favor do inglês, tal como seu pensamento místico e sua poesia. E aí o “novo mundo novo” desejado, terá ido para o beleléu antes de ser experimentado.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

MINIMAMENTE FELIZ


Leila Ferreira*
Jornalista

A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li essa frase num outdoor em Paris e soube, naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. Eu já suspeitava que a felicidade com letras maiúsculas não existia, mas dava a ela o benefício da dúvida.

Afinal, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo. Mas ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho (que de certa forma coincidia com o meio da minha trajetória de vida), tive certeza de que a felicidade, ao contrário do que nos ensinaram os contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro.

Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em conta-gotas. Um pôr-de-sol aqui, um beijo ali, uma xícara de café recém-coado, um livro que a gente não consegue fechar, um homem que nos faz sonhar, uma amiga que nos faz rir. São situações e momentos que vamos empilhando com o cuidado e a delicadeza que merecem alegrias de pequeno e médio porte e até grandes (ainda que fugazes) alegrias.

'Eu contabilizo tudo de bom que me aparece', sou adepta da felicidade homeopática. 'Se o zíper daquele vestido que eu adoro volta a fechar (ufa!) ou se pego um congestionamento muito menor do que eu esperava, tenho consciência de que são momentos de felicidade e vivo cada segundo.
Alguns crescem esperando a felicidade com maiúsculas e na primeira pessoa do plural: 'Eu me imaginava sempre com um homem lindo do lado, dizendo que me amava e me levando pra lugares mágicos Agora, se descobre que dá pra ser feliz no singular:

'Quando estou na estrada dirigindo e ouvindo as músicas que eu amo, é um momento de pura felicidade. Olho a paisagem, canto, sinto um bem-estar indescritível'.

Uma empresária que conheci recentemente me contou que estava falando e rindo sozinha quando o marido chegou em casa. Assustado, ele perguntou com quem ela estava conversando: 'Comigo mesma', respondeu. 'Adoro conversar com pessoas inteligentes'.

Criada para viver grandes momentos, grandes amores e aquela felicidade dos filmes, a empresária trocou os roteiros fantasiosos por prazeres mais simples e aprendeu duas lições básicas: que podemos viver momentos ótimos mesmo não estando acompanhadas e que não tem sentido esperar até que um fato mágico nos faça felizes.

Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte que abandonei há tempos. E faz parte da minha 'dieta de felicidade' o uso moderadíssimo da palavra 'quando'.

Aquela história de 'quando eu ganhar na Mega Sena', 'quando eu me casar', 'quando tiver filhos', 'quando meus filhos crescerem', 'quando eu tiver um emprego fabuloso' ou 'quando encontrar um homem que me mereça', tudo isso serve apenas para nos distrair e nos fazer esquecer da felicidade de hoje. Esperar o príncipe encantado, por exemplo, tem coisa mais sem sentido? Mesmo porque quase sempre os súditos são mais interessantes do que os príncipes; ou você acha que a Camilla Parker-Bowles está mais bem servida do que a Victoria Beckham?

Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitem o momento, amigos. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades.

Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam.

Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente em compasso de espera.

_______________
* Leila Ferreira é uma jornalista mineira com mestrado em Letras e doutora em Comunicação, pela Universidade de Londres. Colaboradora da revista Marie Claire e autora do livro “Mulheres: por que será que elas…?” (Editora Globo), foi repórter da Rede Globo Minas por cinco anos e durante 10 anos apresentou o programa “Leila Entrevista” (Rede Minas e TV Alterosa/SBT), que produziu 13 séries internacionais e por onde passaram mais de 1,6 mil entrevistados.

domingo, 27 de novembro de 2011

SEGREDOS PARA VIVER BEM


Francisco Miguel de Moura*

Começo citando meu querido amigo, escritor Homero Castelo Branco, de quem já discordei de alguma coisa, no passado, mas jamais vou discordar do que escreveu no frontispício de seu livro recente: “A vida se move sempre à mercê de ventos imprevisíveis”. “Ventos Imprevisíveis” é o nome do livro dele, editado este ano, o qual estou a ler.

Por isto é que a vida é segredo. É o futuro que se faz no presente. E a ninguém é dado prever o futuro, por mais que digam as sibilas, os adivinhos. Alguns desses segredos passam por estas quatro palavras: apatia, simpatia, empatia e antipatia. Com o desenvolvimento desta matéria elas vão sendo sugeridas. Precisamos conviver com o mundo físico e com as pessoas. Com o mundo físico, pouco há que fazer, salvo algumas pequenas escolhas, pois tudo está dado à nossa revelia: é a natureza. Com as pessoas, o segredo do bem viver é a convivência pacífica, seja na vida conjugal, na vida comum da rua, no meio social, seja até mesmo a convivência consigo mesmo. Tudo isto se traduz em idéias, dúvidas, saber, falhas e virtudes. E tudo isto podemos fazer, desfazer, refazer, como aprendizado.

Diz-se que a perfeição é virtude de Deus, nunca dos homens. Deveríamos, então, abandonar o ideal da perfeição, pelo fato de não sermos deus nem mesmo de nós mesmos? Nunca. Nosso ideal deve ser o da bondade, da justiça, da perfeição com liberdade. Se, por exemplo, um motorista, por imperícia, mata alguém no trânsito, mesmo que fique sem a punição devida, aceitamos que sinta remorso por isto, não continue atropelando a Deus e o mundo por aí a fora, e não o contrário. A tendência (e a obrigação moral) é arrepender-se pelo errado que se pratica. E todo mundo sabe o que é errado: desde a criança até o velho. Quem mente, furta, rouba, falsifica, trafica, assassina e não sente nenhum remorso não é propriamente humano, tem antipatia pelo ser humano. Pode ser um ente criado por Deus. Mas é um desumano. Agora, quem é caridoso e generoso cultiva a vida, tem simpatia pelo seu semelhante. E já disseram os poetas populares, em versos famosos, que “simpatia é quase amor”. Situado nesse caminho, ocorreu-me a outra palavra, a mais potente entre as citadas: empatia. O amor mesmo está entre a simpatia e a empatia. Maior que a empatia, somente o amor – um sentimento imenso, bem difícil de ser explicado.

Restou a apatia. Os apáticos são os preguiçosos, os que não avaliam a vida, não gostam da vida – nem da própria, não têm esperança. Logo, não têm futuro. Desses, pouco temos o que dizer. São o chamado peso morto. Mesmo assim são humanos. Mais humanos do que os criminosos, os desordeiros de todos os tipos.

Mas ainda restam algumas palavras sobre a empatia. O que é mesmo a empatia? Vamos ver se alguém me diz, porque nós sabemos intuitivamente, mas ainda não conseguimos formalizá-la, esclarecê-la em palavras. Vem do grego emphateia, que significa paixão. O Dicionário Periberam de Língua Portuguesa acrescenta: “Forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma idéia ou uma coisa”.

Essas elucubrações me vieram à tona a partir da leitura de um artigo denominado “O segredo do casamento”, de Stephen Kanitz (Veja, 14/9/2005), que quase termina assim: “Não existe esta tal de estabilidade do casamento, nem ela deveria ser almejada. O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos”. Aliás, tudo muda, já dizia o velho Camões. Portanto, a adaptação às mudanças e a convivência com os diferentes são as duas regras básicas de conhecimento e prática. E com muito amor. Sem amor não há vida inteligente na terra.
_________________
*Escritor brasileiro, mora em Teresina, PI.
E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 1 de outubro de 2011

IRENA SENDLER - MULHER EXTRAORDINÁRIA


Francisco Miguel de Moura

Minha mãe já dizia: “O bocado (o prêmio) não é para quem merece, mas para quem logra”. Assim aconteceu com Irena Sendler. Ela passou a ser conhecida pela mídia, em 2008, visto que em 2007 foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz. Perdeu para Al Gore, político e ativista ecológico norte-americano, autor de um ou dois livros, mais algumas palestras e promoveu um concurso milionário para quem inventar o melhor aparelho para limpeza do ar.

Irena Sendler tinha sido apenas uma humanitarista, uma assistente social polonesa que, durante a 2ª Guerra Mundial, conseguiu salvar, dos campos de concentração nazista, 2.500 crianças judias, contrabandeando-as para fora do gueto. Contava ela com a ajuda de uma instituição chamada ZEGOTA, que tinha apenas duas dúzias de membros. Irena Sendler simpatizava com os judeus, seguindo a tradição de seu pai, que, morreu em fevereiro de 1917, vítima do tifo, quando tratava pacientes abandonados por seus colegas, por serem judeus.

Irena Sendler nasceu em Varsóvia, Polônia, em 15 de fevereiro de 1910 e faleceu no dia 12 de maio de 2008, aos 98 anos de idade, na mesma cidade de Varsóvia. Católica, após a morte de seu pai, líderes da Comunidade Judaica se ofereceram para pagar a educação de Sandler. Ela se opôs ao sistema que existia em algumas universidades polonesas pré-guerra e, como resultado, foi suspensa por três anos da Universidade de Varsóvia.

A atividade social de Irena Sendler, claro, não podia ser legal, nem de acordo com o governo e as leis de Hitler. Assim, trabalhando no Gueto de Varsóvia como especialista em canalização, ela trazia crianças escondidas no fundo de sua caixa de ferramentas e levava também um saco de serapilheira na parte de trás de sua caminhoneta, para crianças de maior tamanho. Outra coisa importante: Levava um cão, na parte traseira do carro, a quem ensinara bem a ladrar aos soldados nazistas, na entrada ou na saída. Os soldados não queriam nada com cães brabos. E eram esses latidos que encobriam o choro das crianças. Ela mantinha um registro com o nome de todas as crianças que conseguia tirar do Gueto, e guardava tais anotações num frasco enterrado debaixo de uma árvore do seu jardim. No fim da Guerra, tentou localizar os pais sobreviventes e reunir a família. Quando não era possível encontrar alguns, porque a maioria tinha ido para as câmaras de gás, conseguia casas de acolhimento ou pais adotivos.

Quando, em 20/10/1943, os nazistas souberam da atividade humanitária clandestina de Irena Sandler, prenderam-na e levaram-na para a prisão de Pawiak, onde foi torturada, quebraram os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação. Foi condenada à morte. Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um ‘”interrogatório adicional”. Ao sair gritou-lhe em polaco “Corra!”. No dia seguinte, Irena encontrou seu nome na lista dos polacos executados. Os membros da ZIGOTA tinham conseguido deter a execução de Irena, subornando os alemães, e ela continuou a trabalhar com uma identidade falsa.

Já passaram mais de 60 anos que a 2ª Guerra Mundial terminou, mas ninguém deveria esquecer que foram 6 milhões de judeus e 20 milhões de russos assassinados, massacrados, violados, mortos à fome e a gás, humilhados – entre os quais grande número de cristãos e sacerdotes católicos. Assim, é inacreditável que ainda exista alguém que elogia Hitler, até mesmo no nosso Brasil. Incrível também é que sejam, às vezes, pessoas que se mantêm em algum cargo administrativo ou atividade política. E também gente que proclama que o Holocausto é um mito.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O QUE É NATUREZA!


Autor:

Francisco
Miguel
de Moura




Desde muito tempo ouço dizer que o homem nasce com certas inclinações ou tendências. É herança genética. E tal herança é muito forte, havendo ambiente propício, ela se desenvolve. Esses pressupostos geraram a discussão do modo de formação do comportamento, da personalidade. O meio e a sociedade chegam a vencer as tendências? Não havia certeza de que a personalidade fosse uma soma dos atributos genéticos com a tintura que a educação e o meio oferecessem. Muito menos se a percentualidade de 50% para cada um componente estaria próxima da verdade.

Mas a ciência, esquadrinhando o genoma, avançou tanto nos últimos anos que uma tal afirmação torna-se ridícula. A revista “Veja”, de 13/09/2006, mostrou à saciedade, em matéria denominada “Anatomia da Personalidade”, de responsabilidade das jornalistas Gabriela Carelli e Érica Chaves, que a ciência descobriu que herança genética influi mais do que se pensava na formação dos caracteres comportamentais das pessoas. Assim é que componentes como explosividade, liderança, inteligência, homossexualidade, religiosidade, etc. já vêm marcados no “ser” de cada ente gerado.


Acreditando na ciência, podemos dizer que o poeta nasce, ou seja, a tendência poética é natural; com ela o homem nasce, tal como com a inclinação para o crime, o suicídio, a amoralidade, a loucura. Isto não significa que inclinação, ou tendência, seja determinismo. Se houver algo que a educação possa fazer, esse algo se chama aperfeiçoamento da personalidade. A vida ensina. É experiência adquirida com sacrifício, do velho adágio. Mas os educadores devem estar conscientes de que não se ensina nada sem que o educando queira. Os sentimentos valem muito. O querer é a alma do homem. Para mostrar que as predisposições naturais, genéticas são muito fortes, a ciência tem feito pesquisas entre gêmeos vitelinos e univitelinos, e estes são os que comprovadamente têm modos, gostos, sentimentos e qualidades iguais. Num universo de 7.000 pessoas, concluiu: “Em 88% dos casos o par de irmãos univitelinos têm o mesmo estado civil – a genética influi também na decisão pessoal de casar, divorciar-se ou permanecer solteiro”. E aferiu a tendência no modo de vestir, em profissões, etc. sendo que os univitelinos criados juntos têm mais tendência a se diferenciarem um pouco, em vista da pressão da família e da sociedade, de modo geral.

Quando eu e minha mulher, certo dia, visitávamos um casal amigo, uma das filhas (gêmeas univitelinas) correu para o jardim, acompanhada da outra. Os pais chamaram-nas para apresentá-las. Mas uma saiu-se com esta: “Já sei o que vão dizer: Olhem as gêmeas! Elas não se parecem?”

Os estudos apresentados na reportagem de “Veja” mostram também a influência do meio. O Instituto de Psiquiatria da Universidade do King’s College, Londres, concluiu que os genes que atuam na liberação de neuro-transmissores, responsáveis pela depressão e por atitudes anti-sociais, só se manifestam em pessoas expostas a situações de grande estresse, como perda de emprego ou morte na família. Outro instituto de pesquisa identificou regiões genéticas similares em amostras de sangue de 400 pacientes com anorexia ou bulimia, mas “os mesmos marcadores aparecem em pessoas sem o distúrbio”, diz a geneticista Cynthia Bulik.

A reportagem resume: “O genes carrega a arma e o ambiente puxa o gatilho”, diz o geneticista Matt Ridley. E o biólogo Richard Dawkins, também da Universidade de Oxford, e autor de “O gene egoísta”, arremata: “A genética do comportamento mudará muita coisa. Se partirmos do pressuposto de que nossa mente é regida por algo além dos conceitos éticos e morais aprendidos – como punir um assassino? Quando um computador não funciona, em vez de puni-lo, nós o consertamos.”


sábado, 20 de fevereiro de 2010

A BRINCADEIRA MAIS SÉRIA




Francisco Miguel de Moura*



Não tenho vergonha de dizer que faço versos nem como os faço. Todo dia a minha antena funciona: emoção diante da vida ou dos próprios pensamentos, a cota de anos, de dias, de sacrifícios, de prazeres e virtudes, enganos e erros. E ainda topamos com as perplexidades diante das variações do Imposto de Renda e da situação financeira, ou da política – esta porcaria que nos procura diariamente, desde o nosso próprio emprego até o nosso salário e o dos filhos. E estes continuam sempre nossos filhos pelo amor e pela pior situação econômico-financeira do que nós, uma prova de que o mundo vem piorando e, com ele, nosso Brasil. É aqui que se faz crítica em poesia. Entram em ação as paródias e os epigramas, a sátira a permear as imagens de nossa linguagem, cuja forma pode ser soneto, trova, haicai, balada, poema livre etc. É preciso ter cuidado para que o dia-a-dia não se banalize em nossa letra poética. A linguagem da poesia é diferente. Se você quer escrever um artigo é só usar as palavras e frases comuns. Se quer fazer uma confissão, da mesma forma. Não importa que aquele seja no tom sarcástico e este no sentimental, individual.

Não posso ficar com a frescura de dizer que sou um bom poeta, daqueles que o verso/poema/canto salta da cuca e vai direto para a pauta do papel pela esferográfica como criança que nasce de parto normal e de mãe sadia. Tenho minhas pequenas e grandes dificuldades. Elejo temas que continua a glosar em todas as poesias de uma fase. Começo poema que nunca termino, por medo ou incapacidade, não importa. Acompanho os passos de meus poemas, monto-os e os desmonto ao belprazer de minha brincadeira intelectual com as palavras. É assim que se arma uma brincadeira. É assim que se faz poesia também: brincando. Certa vez brinquei de trabalhar um poema e consegui cerca de 10 diferentes formas, evocando o mesmo tema. Não faz muito tempo, foi quando eu e o poeta Hardi Filho construíamos o nosso livro “Tempo Contra Tempo”, editado em parceria, que continua fazendo sucesso de crítica e de leitores. Ontem o fato se repetiu, agora com uma poesia que nem sei se vou publicar. Goza de mim, leitor? Pois é. E não faço bazófia. Se for riqueza, é apenas de autocrítica. Talvez defesa. Não tenho grande memória, supro-a com a fertilidade da imaginação, com o trabalho, com o suor do rosto. Anotações mais anotações. Depois, o poema lírico sai das comportas do “eu”, como sabemos, e a forma é que deve universalizá-lo por metáforas surpreendentes, não aquelas já velhas e surradas, catacréticas e cheias de cataratas que obstruem a visão do leitor.

Sofrer? O poeta é sofrimento e alegria, quase parodiando Fernando Pessoa, em seu “o poeta é um fingidor”. Mas compreendamos. A inteligência pode ser a comum, a que tenho. Depois que o homem inventou a Enciclopédia, o Dicionário, o Computador, sem falar no disco, na gravação, no papel em branco, na tinta e na caneta – o coração e a cabeça devem ficar disponíveis para o amor e o balanço (da dança, da rede ou da mão quando escreve), para que a inspiração corra livre e desimpedida durante o dia. Eu caminho, fora e dentro de casa, e caminhando me encho de “inspiração”. A noite é insondável para a poesia, como a morte. Se uma coisa puxa a outra, digo que meu trabalho “artesanal” segue noite adentro, em busca da melhor forma, do melhor som, da melhor cor – o poema tem cor, podem crer. É a imagem em metáfora ou metonímia, em comparação ou por oposição, correndo para fixar-se em letra de forma, em companhia com o senhor já insondável conteúdo, a mudar de roupa e a querer parecer outra coisa que não ele – sendo ele mesmo. Contexto vivo e palpitante, e nele, a poesia necessária como ar que se respira.

______________
* Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da APL - Academia Piauiense de Letras, Teresina, PI, Brasil, e da IWA - International Writers and Artists Association,Toledo, OH, Estados Unidos



segunda-feira, 22 de junho de 2009

ACALMANDO TEMPESTADES



A fé dos discípulos é caracterizada no evangelho com a pergunta: ''Mestre, não te importas que morramos? ''É pergunta que se ouve ainda hoje, com variantes: Por que Deus permite a miséria e o mal no mundo? Por que permite a doença e a morte de crianças inocentes? Por que não impede a violência e a injustiça que avassalam povos inteiros? E a ladainha poderia se estender...

Ao atravessar o mar para a terra dos pagãos, enfrentando àguas tempestuosas, a barca representa a comunidade dos seguidores, ameaçada por novos ambientes e realidades. A tempestade são as provações, e é ai que se testam a fé e a confiança dos seguidores de Jesus. Tempestade são hoje as situações difíceis que enfrentamos, a exigir sempre novas respostas para sermos criativamente fiéis ao projeto de Jesus.

A certeza de que Jesus está conosco no mesmo barco, na mesma missão, é o fundamento de nossa fé. No caso dos discipulos, para acalmar a tempestade, seria preciso acordar o Mestre, que dormia? A reação de Jesus em relação a eles, depois de ter acalmado o mar, é de decepção e repreensão, pois ao simplesmente jogar para ele a solução do problema, os discípulos demonstram ser medrosos e fracos na fé.

E nós, como enfrentamos as provações? Cremos que Deus nos acompanha no mar da história e tem poder e autoridade sobre todas as forças do universo, também sobre as ondas violentas que se levantam contra as comunidades? Nossa fé nos permite assumir com confiança a própria parte da missão e da história ou vivemos empurrando para Deus problemas cuja solução é responsabilidade nossa?

Com o amadurecimento da fé, as perguntas começam a mudar. Não cabe questionar por que Deus permite o mal no mundo, pois sabemos que ele é o Deus que sofre com os que sofrem, o Deus que conta conosco para continuar seu projeto de liberdade e vida. Ao mudar as ações, mudamos as perguntas. Como sentimos hoje a presença de Deus em nosso meio? Como assumimos a própria responsabilidade nos desafios e provações da missão?

Pe. Paulo Bazaglia, ssp